sexta-feira, agosto 19, 2005

O Alentejo de outros tempos




O Alentejo é uma província de eleição que tem servido de bêrço, desde os mais remotos tempos, a indivíduos que marcaram destacadamente uma situação em variadíssimos campos de actividade: na ciência, política ou administração; nos descobrimentos e conquistas, no trono ou púlpito, na música, na pintura, nas letras e nas artes, entre outras.
Porém, a ocupação e preocupação da maioria, foi e é o trabalho da terra fecundadíssima, de aspecto especial, devendo notar-se que têm voz, trajo e tipo característico os que, de sol a sol, arrancam dela o alimento necessário e bastante para uma grande parte da nação. São eles os grandes obreiros do Portugal melhor, do Alentejo-Celeiro de Portugal, que, com o seu suor e esforço, dão a maior e melhor prova de que a sua terra será sempre grande com trabalhadores como eles.
Trabalham cantando; têm mesmo uma psicologia própria, um modo de viver muito seu.
Independentes, ousados, alegres embora de feições duras e escurecidas pelo sol, eles mostram bem, pelo espírito decidido e olhar sobranceiro e um tudo nada desconfiado, que possuem a consciência da sua força e do seu valor.
Merece a pena fazer uma descrição do que é a vida do trabalhador rural do Alentejo, empregando noquadro alguns dos seus muitos expressivos termos:
A cebola que ficou na algibeira do colête, defendida por umas bôlsinha de lã de várias côres, marca as quatro e mei, pela cantiga.
Ainda se não sabe onde vem o dia, mas como as parelhas têm horas certas, é preciso dar-lhe a ração, ou melhor a reção.
O carreiro salta da tarimba e começa a vestir-se: calça os sapatos de atanado e ajusta a correia da cint, que alargou para dormir à vontade.
Espevita um pouco a luz mortiça e fumarenta da candeia suspensa, e dispõe-se a deitar as medidas do costume.
Levantam-se as bêstas, rincham, sacodem-se elas próprias da palha da cama, e começam a trincar o traço.
O carreiro, feitas duas festas na cabeçorra ou na anca dos animais, passa novamente pelo sono e, ao dealbar, de novo ergue, dá uma escovadela ao gado e vai ao pôço.
À volta, junto à porta da cavalariça ou do casão, deita-lhe a canga para cima e engancha.
No carro, se vai para longe e não volta à noite, leva as comedias ou comedorias, que lhe hão-de dar para a semana: almotolia com azeite, toucinho, queijo, pão, um tarro ou uma marmita, o seu bocado de linguiça ou morcela e um corno ou corna com azeitonas.
Leva çafões ou ceifões, o pelico, uma manta a comida num alfôrge, um caldeiro, uma corda e a alfáia que se destina ao trabalho da época: arado, charrua, grade ou trilho, com todos os pertences.
Pela estrada fora juntam-se aos cinco e aos seis, fazendo comboio; dormem a sua soneca umas vezes, cantam outras.
Atam as arreatas a um dos tendias, a um fueiro, e estensem-se ao comprido, de papo para o ar ou de bruços.
Nasce-lhe muitas vezes o sol no caminho; disperta-os da meia sonolência, e, embora o gado já acostumado ao caminho se conduza por si, falam-lhe, espertam-no por sua vez, não vá dar-se o caso de quando chegarem ao monte, já outros os terem enregado.
Á sua volta a natureza veste-se de galas e ilumina-se feèricamente na luz clara da manhã, que traz consigo um odor delicioso a pastos, a flôres do campo, passado pelo ar diáfono e puríssimo que enche o peito, dá alento, vida, inspiração.
E os trabalhadores, embriagados pelo grandioso cenário, inspirados por tanta beleza natural, cantam com cadência impressionante:
Cantas bem, não cantas mal
Garganta de marafim;
Dou um vintém para as almas
Se cantares melhor c'a mim !
Ao longe, responde-lhe, picado, um galispo pimpão, sádio e contente, alheio ao que o rodeia, ignorante da sua curta vida, todo cheio de si, orgulhoso de dispôr de tanta galinha...
Cruzam-se na estrada os carros.
Trocam-se saudações e por mais de uma vez se ouve o « Salve-o Deus a Vocemecê»
Chegam ao local de trabalho; desengancham e recolhem os mantimentos na «casa da malta» e recomendam água quente à Ti Jaquina, para logo, para a açôrdado almôço.
E lá vão alegres, bem dispostos, samgrar a terra que os mantem a todos, alqueivá-la ou fazer-lhe o atalho, dá-lheo adubo ou espalhar as estriqueiras, para que ela possa , como sempre, dar-lhe das sua entranhas fecundíssimas a matença e dos seus.
Após um almoço frugal, comida no tarro e a açôrda ou no barranhão comum, bebidos dois goles de vinho se o há, vai uma aguada ao gado, bebidos da qual recomelçam a faina cantando:
S' és galo alivanta a crista
S' és frango larga a pinuge;
S' o desafio é comigo
At' ós sapatos e fuge.
Que de encantos encerra a vida no campo, no Alentejo, para quem a saiba queira ver, e nela se embriagar !
Que de poetas e artistas têm já cantado e registado nas telas as suas belezas e encentamentos ! ....

1 Comments:

Blogger Renata said...

Alentejo é Alentejo, sempre Lindo, muito haveria para dizer...mas não é necessário quem conhece sabe, quem não conhece fica a perder com toda a certeza.
Um abraço para todos que Amam o Alentejo.

Fica mais um site do Alentejo para conhecer...que também tem um Blog.
http://aldeiasantaeulalia.com.sapo.pt e http://www.aldeiablog.blogspot.com/

Uns Alentejanos

quarta-feira, maio 03, 2006 12:07:00 p.m.  

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