segunda-feira, agosto 22, 2005

Redondo "Terra Linda"






REDONDO

Redondo é uma bela terra alentejana.

A ORIGEM DO NOME:

“Está situado em um mediano e ordinário monte por cuja ladeira abaixo vistosamente se estende para as partes do sul e poente; foi este monte sempre celebrado pela circunstância do Penedo Redondo, Que no mesmo monte se acha e de que esta vila tomou o nome. Deste modo senão vê hoje mais que uma parte por esta formada sobre ele uma pequena torre das sete que tem o Castelo”. (Arqueólo Português – 1901).

Parece que a povoação de Redondo já existia no tempo dos romanos (...) D. Dinis cônscio da importância da situação da terra e preocupado com a obra de defesa do país, que o levou a fazer construir ou reparar, na fronteira com a Espanha, a linha de castelos Marvão, Portalegre, Alegrete, Monforte, Elvas, Vila Viçosa, Juromenha, Monsaraz, Mourão e Moura, e no interior tantos outros, não esqueceu o Redondo e em 1319 (era de César de 1357) fez levantar o actual castelo num outeiro, onde diz a tradição existiu o penedo redondo que deu o nome à vila”. (António de Souto Maior – 1929).

“É atraente, bem que por vezes difícil, a investigação das origens dos nomes de povoações portuguesas, visto que a toponímia nacional é muito rica e variada em denominações derivadas de raízes tão diversas, por vezes obscuras, provenientes do romano peninsular, do fenício, do árabe, do grego, do cartaginês, do celta, do latim medieval, etc. . Redondo tem o étimo bem definido. D adjectivo latino rotundus, a, um, pela lei geral do us nominativo ou do um acusativo se transformar sem esforço de maior em o pela lei de transformação fonética também natural e por isso geral do abrandamento, quando não queda da consoante intervocálica, essa voz latina deu Redondo, forma que na boca do povo, por um processo regressivo e inverso ao da desassimilação anterior que o prova e o explica readquire muitas vezes a pronunciação redondo quer no adjectivo quer no nome próprio dessa laboriosa vila alentejana. É simples e corrente, pois, a transformação que deu em nossos dias o nome Redondo derivado do latim rotundus , palavra que aliás se conserva na língua portuguesa, mais próxima, porém da origem latina, em rotundo como rotunda, substantivo comum, o lugar redondo, transformado em próprio na toponímia urbana (como exemplo: várias Rotundas da cidade de Lisboa), e que o povo teima em designar por esse nome breve, eufórico e nobre em que pese aos editais de vereadores que teimam em ensinar ao povo a história pátria, quase banida do ensino escolar, por meio de letreiros pintados nos cunhais dos prédios urbanos ! Isto sabe-o muita gente, sabe-o talvez a totalidade dos naturais do Redondo. O que talvez não saibam, porém, é que no Baixo Alentejo há outra vila também importante e antiga, que tem o mesmo nome, mas derivado do árabe: “Almodôvar”. Almodôvar diz em árabe, exactamente, o que nós dizemos com o vocábulo latino rotundos, isto é, redondo !. Almodôvar é palavra árabe, representando aqui o u um carácter que no alfabeto respectivo indica um som gutural para que o nosso alfabeto latino não tem letra, que nos é muito difícil de pronunciar e que os peninsulares falavam o árabe simplificaram na província e acomodaram na escrita por meio do v. Note-se que esta palavra Almodôvar (redondo), como o seu verbo doutra, endoura (arredondarei, arredondo), como o seu adjectivo Almodauer (o que arredonda) são do árabe puro, não do dialectral, ou do mestiço árabe peninsular. Assim temos no Alentejo dois Redondos. O do nome romana mais ao norte, o de nome árabe mais ao sul. Cremos que os naturais terão totalmente expungido do coração a gentilidade dos romanos e os da outra todas as expressões ignóbeis dos sectários de Mafamede e que uns e outros serão, ao contrário, muito bons cristãos, os do sul fabricando o seu azeite e os do norte as grandes talhas de barro para o armazenar”. (Dr. Domingos Vaz Madeira “Ilustração Alentejana” – 1929).

A região de Redondo é habitada desde remotas eras, recebeu o primeiro foral de D. Afonso lll, em 1250, confirmado em 1318 por D. Dinis. D. João 1 concedeu-lhe privilégios, estabelecendo uma cláusula que obrigava a passagem por Redondo a todos os que se dirigissem de Vila Viçosa para o Alandroal e vice-versa, o que muito contribuiu para o seu desenvolvimento. D. Manuel l autorgou-lhe foral novo em 1516.

“Tem-se dito que a denominação actual provém de um enorme rochedo arredondado, que havia no local onde depois se construiu a Igreja da Misericórdia, e que seria alguma anta ou outro monumento pré-histórico. De qualquer modo, o nome desta actual vila alentejana filia-se no nome comum redondo, do latim rotundu -, através do português arcaico rodondo e com a posterior dissimilação do primeiro “o” em “e”. (Dr. Xavier Fernandes – 1944).

Redondo é uma vila onde tradicionalmente se produz artesanato procurado pelos turismo. Mesmo assim, há falta de aprendizes que continuem essas artes. Fabricam-se ainda utensílios de pele, de ferro pintado e outros materiais, mas o que mais se produz são peças de mobiliário e louça de barro pintada ou utilitária. Fabricam-se em Redondo duas espécies de pratos pintados: os tradicionais, com fundos claros e motivos diversos (flores, animais, cenas da vida rural) e os fundo vermelho ou negro, com ramos de flores pintados a tinta de óleo. Estes últimos são recentes e destinam-se apenas a fins decorativos. Os tradicionais podem ser utilizados como louça funcional. Os motivos são decalcados com o barro ainda relativamente fresco e pintados em seguida com anilinas, após o que os pratos são cozidos e vidrados. Os temas florais usados na louça e no mobiliário são muito antigos. Os artesãos dizem que “foram deixados pelos Mouros”, mas cada um dá às formas a sua interpretação pessoal. Uma oficina de mobiliário depende de trabalhadores de vários ofícios. Os móveis são feitos por carpinteiros e depois as cadeiras são empalhadas por outro artista. Passam seguidamente para a mão do pintor, que começa por os cobrir com aparelho de tinta de óleo. Pinta-os depois com esmalte de cor lisa, e só quando este seca os decorar com ramos e flores.A mobília de quarto completa consta de cama, duas mesas-de-cabeceira, guarda-fato, cómoda ou escrivaninha, caixilho para espelho e uma cadeira com assento de buinho. Fazem-se também cadeiras, arcas e baús de diferentes tamanhos, que se vendem separadamente. O artesanato encontrou no Alentejo condições óptimas para se implantar. A solidão real da vida deste povo desenvolveu-lhe a sensibilidade. Vivendo nos campos, isolados dos centros de consumo e dispondo de poucos recursos económicos, o homem viu-se na necessidade de fabricar os seus próprios utensílios. O gosto pela beleza e a abundância de tempo livre levou-o a decorar esses objectos com arte, amor e paciência. Na zona de Redondo existe bom vinho de mesa, sendo o mais conhecida “Porta da Ravessa”. Esta província portuguesa tem belíssimos vinhos. A imensidão de horizontes planos, ou quase planos, aliada à sua meridionalidade, oferem ao Alentejo características Mediterrâneas e Continentais. A insolação tem valores bastante elevados, o que se reflecte na maturação das uvas, principalmente nos meses que antecedem as vindimas, conferindo-lhe uma perfeita acumulação de açúcares e de matérias corantes na película dos bagos. As vinhas localizam-se, na sua maioria, em substrato geológico de rochas plutónicas (granitos, tonalitos, sienitos e sienitos nefelínicos), sendo contudo de salientar, a diversidade de manchas pedológicas nas quais as vinhas são instaladas (nomeadamente manchas xistosas e argilo-calcárias). É igualmente de referir, que os melhores terrenos são eleitos para a cultura cerealífera e a exploração agro-pecuária, pelo que a vinha e a oliveira, dada a sua rusticidade, assentam nos solos com fraca capacidade de uso.

O porco é a base alimentar de todo o Alentejo. Os rojões à alentejana, as fêveras de porco na brasa e as migas, a açorda de coentros e poejos e o gaspacho fazem jus à cozinha tradicional desta região. Na doçaria recomenda-se o caricá (doce à base de ovos), o bolo de amêndoa do Convento da Vidigueira e o bolo podre."

(Descrição efectuada pelo grande escritor : Carlos Leite Ribeiro)

sexta-feira, agosto 19, 2005

O Alentejo de outros tempos




O Alentejo é uma província de eleição que tem servido de bêrço, desde os mais remotos tempos, a indivíduos que marcaram destacadamente uma situação em variadíssimos campos de actividade: na ciência, política ou administração; nos descobrimentos e conquistas, no trono ou púlpito, na música, na pintura, nas letras e nas artes, entre outras.
Porém, a ocupação e preocupação da maioria, foi e é o trabalho da terra fecundadíssima, de aspecto especial, devendo notar-se que têm voz, trajo e tipo característico os que, de sol a sol, arrancam dela o alimento necessário e bastante para uma grande parte da nação. São eles os grandes obreiros do Portugal melhor, do Alentejo-Celeiro de Portugal, que, com o seu suor e esforço, dão a maior e melhor prova de que a sua terra será sempre grande com trabalhadores como eles.
Trabalham cantando; têm mesmo uma psicologia própria, um modo de viver muito seu.
Independentes, ousados, alegres embora de feições duras e escurecidas pelo sol, eles mostram bem, pelo espírito decidido e olhar sobranceiro e um tudo nada desconfiado, que possuem a consciência da sua força e do seu valor.
Merece a pena fazer uma descrição do que é a vida do trabalhador rural do Alentejo, empregando noquadro alguns dos seus muitos expressivos termos:
A cebola que ficou na algibeira do colête, defendida por umas bôlsinha de lã de várias côres, marca as quatro e mei, pela cantiga.
Ainda se não sabe onde vem o dia, mas como as parelhas têm horas certas, é preciso dar-lhe a ração, ou melhor a reção.
O carreiro salta da tarimba e começa a vestir-se: calça os sapatos de atanado e ajusta a correia da cint, que alargou para dormir à vontade.
Espevita um pouco a luz mortiça e fumarenta da candeia suspensa, e dispõe-se a deitar as medidas do costume.
Levantam-se as bêstas, rincham, sacodem-se elas próprias da palha da cama, e começam a trincar o traço.
O carreiro, feitas duas festas na cabeçorra ou na anca dos animais, passa novamente pelo sono e, ao dealbar, de novo ergue, dá uma escovadela ao gado e vai ao pôço.
À volta, junto à porta da cavalariça ou do casão, deita-lhe a canga para cima e engancha.
No carro, se vai para longe e não volta à noite, leva as comedias ou comedorias, que lhe hão-de dar para a semana: almotolia com azeite, toucinho, queijo, pão, um tarro ou uma marmita, o seu bocado de linguiça ou morcela e um corno ou corna com azeitonas.
Leva çafões ou ceifões, o pelico, uma manta a comida num alfôrge, um caldeiro, uma corda e a alfáia que se destina ao trabalho da época: arado, charrua, grade ou trilho, com todos os pertences.
Pela estrada fora juntam-se aos cinco e aos seis, fazendo comboio; dormem a sua soneca umas vezes, cantam outras.
Atam as arreatas a um dos tendias, a um fueiro, e estensem-se ao comprido, de papo para o ar ou de bruços.
Nasce-lhe muitas vezes o sol no caminho; disperta-os da meia sonolência, e, embora o gado já acostumado ao caminho se conduza por si, falam-lhe, espertam-no por sua vez, não vá dar-se o caso de quando chegarem ao monte, já outros os terem enregado.
Á sua volta a natureza veste-se de galas e ilumina-se feèricamente na luz clara da manhã, que traz consigo um odor delicioso a pastos, a flôres do campo, passado pelo ar diáfono e puríssimo que enche o peito, dá alento, vida, inspiração.
E os trabalhadores, embriagados pelo grandioso cenário, inspirados por tanta beleza natural, cantam com cadência impressionante:
Cantas bem, não cantas mal
Garganta de marafim;
Dou um vintém para as almas
Se cantares melhor c'a mim !
Ao longe, responde-lhe, picado, um galispo pimpão, sádio e contente, alheio ao que o rodeia, ignorante da sua curta vida, todo cheio de si, orgulhoso de dispôr de tanta galinha...
Cruzam-se na estrada os carros.
Trocam-se saudações e por mais de uma vez se ouve o « Salve-o Deus a Vocemecê»
Chegam ao local de trabalho; desengancham e recolhem os mantimentos na «casa da malta» e recomendam água quente à Ti Jaquina, para logo, para a açôrdado almôço.
E lá vão alegres, bem dispostos, samgrar a terra que os mantem a todos, alqueivá-la ou fazer-lhe o atalho, dá-lheo adubo ou espalhar as estriqueiras, para que ela possa , como sempre, dar-lhe das sua entranhas fecundíssimas a matença e dos seus.
Após um almoço frugal, comida no tarro e a açôrda ou no barranhão comum, bebidos dois goles de vinho se o há, vai uma aguada ao gado, bebidos da qual recomelçam a faina cantando:
S' és galo alivanta a crista
S' és frango larga a pinuge;
S' o desafio é comigo
At' ós sapatos e fuge.
Que de encantos encerra a vida no campo, no Alentejo, para quem a saiba queira ver, e nela se embriagar !
Que de poetas e artistas têm já cantado e registado nas telas as suas belezas e encentamentos ! ....

quarta-feira, agosto 17, 2005

Cancioneiro Alentejano

Cancioneiro Alentejano

'' É a compilação das mais variadas quadras populares, cantigas, modas, descantes, poesia culta, entre outras; todas elas sobre o Alentejo dos mais variadíssimos autores e reproduzidas na sua escrita original. ''



O Alentejano

Oh homem triste, calado,
Do país das azinheiras,
Onde à solta vive o gado,
Onde crescem sementeiras.

E' teu brazão o arado
Que revolve as ribanceiras,
O monte templo sagrado,
Lá sonhas noites inteiras.

Alvito, ao darem matinas
Ergues-te, vais pr'as campinas,
Rude faina da lavoira...

Mas logo que o estio chegar,
A sorrir, irás ceifar
A linda seara loira.

Augusto Sousa Zuzarte


A Minha Mãi

O dia vai morrer.... veio a tardinha
Pôr as coisas em prece, ao meu redor...
Calaram seu ruído a Forma e a Côr...
E eis que a minha alma fica mais sòsinha.

Bem-dita seja a Hora do Sol-Pôr!..
Já o lindo cortejo se avisinha
De quantas almas, em amor ou dor,
Se têm dado em comunhão à minha.

E acercam-se ... Litúrgicos e mestos,
Seus dedos brandos são apenas gestos,
Ungindo a minha dor ... Mas eis que Alguém

Em mais ânsia me beija ... e envolve ... em geito
De me fechar de novo no seu peito
P'ra me abrigar da Vila ... E' minha Mãi !

Hernâni Cidade


Montes Alentejanos

Montes da minha terra, tam branquinhos,
Lembram topos da serra alvejantes,
Sentinelas àlerta nos caminhos
Por onde passam rôtos viajantes...

Para êles, de longe suplicantes,
Erguem as mãos famintos pobrezinhos.
Andam no ar perfumes penetrantes
De giestas, piorno e rosmaninhos.

E, mesmo que anoiteça, é sempre dia...
O luar é candeia que alumia,
Grande fonte de luz abençoada.

Montes da minha terra, tam branquinhos !
-Asas de pombas gasalhando ninhos-
Oásis na chaneca desolada.

Tereza de Carvalho


Desejo

Tardes de julho, lentas, abrazadas
Poentes a sangrar melancolía !
São gotas de saudade e nostalgia
Caíndo sôbre as terras desbravadas.

Tardes dolentes, graves, demoradas,
Como um sofrer pesado de agonia,
De beleza fantástica, bravia,
Visões estranhas de côr incendiadas.

Quando abri os meus olhos foi p'ra vê-las,
Oh tardes rebrilhantes como estrêlas
Inda doirando as sombras do montado.

Serrar quizera o meu olhar maguado,
Numa tarde de Julho transparente,
Derradeira ilusão do sol poente.

Maria de Santa Izabel


A Vila do Alentejo

Qual Camponês voltado da canceira,
Em busca da quietude dos casais.
Assim procuro, ó terra prazenterira,
Teus carinhosos braços maternais !

Que eu possa ver nessa hora derradeira
O meu lar bonançoso e os laranjais,
Depois dizer adeus`a luz fagueira
Do crespusc'lo das tardes outonais !

Teu campo é um festão de primavera ! ...
Não te esqueças de mim ! Atende, espera,
O' vila transtagana, ó meu carinho !

Romeiro da saudade, eu ando aflito
Até gosar o anelo dum proscrito
Na sublime doçura do meu ninho !

Mário Florival


Amar por Amar

Não quis nunca saber se aquele que eu amava
Era sincero ou não, se era nobre ou plebeu.
Amava-o porque sim! E se não me adorava
E sabia fingi-lo, que mais queria eu?

Era a dita suprema de julgar-me, qu'rida,
Fazer-me pequenina, junto a um peito forte
Que me cingisse a si, quasi a tirar-me a vida.
E, se eu morresse assim, bendita fôsse a morte

Nunca busquei sondar o recanto das almas.
Ondas a cachoar, almas tranquilas, calmas,
O mesmo rumo levam e vão dar ao mar.

Sentido ou falso, tem o beijo igual sabor,
Meu peito nunca amou em troca doutro amor.
Unicamente amei, pelo prazer de amar!

Mercedes Blasco


Nota: O Cancioneiro Alentejano vai aumentando todos os dias o seu longo espólio...